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Água-doce, água-salgada

Água-doce, água-salgada:
património arqueológico em risco, num clima em mudança

Entidade Financiadora: Science4Policy (S4P): Concurso de Estudos de Ciência para as Políticas Públicas – PLANAAP e Fundação Para a Ciência e Tecnologia
Linha temática: Transição climática e sustentabilidade dos recursos / Cenários climáticos e impactos esperados em Portugal sobre o património cultural (arqueológico e arquitetónico) 
Instituição Proponente: Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa – UNIARQ
Investigador Responsável: Mariana Diniz
Investigador Co-Responsável: Maria Conceição Freitas
Instituições de Colaboração: Instituto Dom Luiz (IDL) – Universidade de Lisboa, Associação dos Arqueólogos Portugueses, Museu Nacional de História Natural e da Ciência
Duração: 7 meses (01/09/2025 a 31/03/2026)
Financiamento: 49 000,00 €

Resumo:
Pretende-se com este projecto monitorizar, em sítios arqueológicos, o impacto das alterações climáticas em curso, em particular o provocado pelos efeitos das águas da chuva e das águas do mar, obtendo informação multidisciplinar que permita antecipar cenários e riscos futuros, contribuindo para a definição das melhores politicas de minimização de impactos, sobre o património.
Foram para o efeito selecionados dois casos de estudo: o povoado calcolítico de Vila Nova de São Pedro (Azambuja),  e o sítio romano de Loulé Velho (Loulé), cujas diferentes localizações geográficas permitem torná-los pontos privilegiados de observação e laboratórios de ensaio de protocolos de salvaguarda de sítios sob ameaça.
Em Vila Nova de São Pedro, povoado ocupado ao longo do 3º milénio AC, implantado numa região calcária, sobre um afluente da margem direita do Baixo Tejo, onde avaliar o caráter dissolvente da água doce (precipitação, escorrência e subterrânea) sobre as estruturas arquitectónicas construídas em calcários e argamassas, é um dos objectivos nucleares do projecto, através da recolha e análise laboratorial das águas de precipitação, escorrência e subterrânea do aquífero desenvolvido no sistema cársico sobre o qual o sítio se implanta.
Ao mesmo tempo, a caracterização das dinâmicas da paisagem envolvente e da dimensão, no Tempo longo, do impacto antrópico, através da desflorestação, da actividade agrícola, e do mais recente abandono rural, justifica a realização de sondagens geo-arqueológicas e obtenção de colunas longas de sedimentos no vale da Ribeira de Almoster, que corre a Oeste do sítio arqueológico e cuja análise permitirá, entre outros aspectos, avaliar o peso, entre outras espécies do Quercus coccifera L, vulgo carrascos, na história da vegetação regional. Definir as melhores estratégias para controlar esta ameaça vegetal, omnipresente nos climas mediterrâneos e com tendência de crescimento – dada a esperada subida de temperaturas – é também um dos objectivos deste projecto.
O sítio de Loulé Velho, ocupado durante o período romano e antiguidade tardia, localiza-se hoje na arriba de uma praia, na costa Sul algarvia e encontra-se ameaçado pelo avanço das águas do mar, a água salgada, avanço conectado com o aquecimento global. Neste caso, são objectivos do projecto a monitorização detalhada da alteração da linha de costa e do impacto crescente que esta foi exercendo sobre o sítio arqueológico, em risco de desaparecimento.
A realização de sondagens geo-arqueológicas e obtenção de colunas de sedimentos no paleo-estuário, a recolha em arquivo de informação histórica e de registos fotográficos recentes vai documentar, a partir da reconstrução digital da área envolvente, a velocidade de erosão da linha de costa e tornar clara a urgência de medidas pro-activas de defesa do património costeiro, em particular em área de enorme vulnerabilidade como a do limite ocidental da Ria Formosa.
Água-doce, água-salgada: património arqueológico em risco, num clima em mudança assume-se assim como um projecto multidisciplinar que combina arqueológos, geólogos e biólogos, com uma agenda comum na procura de conhecimento cientifico que permita enfrentar os desafios imensos que as alterações climáticas colocam aos sítios arqueológicos. A partir de uma metodologia global que implica trabalho de campo, trabalho de laboratório e de arquivo, constrói-se um diagnóstico dos riscos imediatos e dos que, em consequência das alterações climáticas, pendem a curto, médio-prazo sobre os sítios, nomeadamente chuvas ácidas, crescimento descontrolado de vegetação invasiva, avanço das águas do mar, e propõe-se, num dossier de boas práticas a disponibilizar à Administração, medidas preventivas.
A apresentação, em canais físicos e digitais, dos resultados, e a sensibilização dos stakeholders e dos não especialistas face aos riscos que corre o Património fecham este projecto.